
A poucos dias de abandonar a China à sua própria sorte, retomo esta empreitada de jornalismo sério, decente, ético e respeitador do estado democrático de direito. As curtas férias em uma cidade no fim do mundo sob temperaturas perto de 30 graus negativos me fizeram muito bem. Agora, aguardo ansiosamente a sexta-feira para entrar, mais uma vez, na mãe de todas as férias: o desemprego.
Enquanto a pindaíba não vem, faço as malas e lembro de algumas coisas que farão falta quando me mandar. Também lembro das que não farão a menor falta, mesmo que eu me esforce para encarar o famoso “é a cultura de cada um”, o clichê favorito de 9 entre 10 viajantes.
A lista é maior, tanto pra um lado quanto pro outro, mas acho que esses itens já são um bom começo. Não incluo os amigos que fiz aqui, porque botar isso em uma lista junto com metrô e tofu com carne seria muito pouco:
O que fará falta:
A comida. Sabe aquele seu cardápio do China in Box? Então, nada a ver.
Ter um metrô que realmente cobre uma parte significativa da cidade (chupa, São Paulo)
Passar pela Praça Tian'anmen bêbado em um táxi às 5 da manhã e ver o povo se amontoando pro hasteamento da bandeira
Já mencionei a comida?
Velhinhos que não precisam de “permissão” pra fazer nada, têm um preparo físico invejável e são extremamente respeitados por todos
Jogos de futebol no estádio Fengtai, com direito a doses cavalares de cerveja e berros em chinês contra o juiz e o time adversário
A mudança no semblante de 99% dos locais depois que ouvem “sou brasileiro” - e as quase inevitáveis menções ao futebol e ao “Lo-nal-dô!” que seguem o sorriso
Bebida barata
Tá entediado? Vai passear em um observatório construído em 1421. Ou na Cidade Proibida. Ou no parque onde o imperador fazia os sacrifícios pela colheita. Chupa, Itaú Cultural.
Ir almoçar numa segunda-feira e ver quatro sujeitos enchendo a cara de baijiu na mesa ao lado
Encontrar os mesmos quatro sujeitos do restaurante entrando no mesmo prédio que você depois do almoço indo trabalhar
Ouvir uma catarrada a cada 300 metros caminhados (ou menos)
Crianças que mijam e cagam em qualquer lugar. QUALQUER lugar
Essa sensação de que comer coisas industrializadas é uma roleta-russa constante
Essa sensação de que comer coisas não-industrializadas é uma roleta-russa constante
Estrangeiros que estão “suuuuper adaptados à China” nos seus prédios na área de estrangeiros, com comida estrangeira, todo mundo falando inglês e sem nunca terem entrado em um metrô sequer em suas vidas descoladas e antenadas
Estrangeiros que tentam viver como se fossem agricultores da época pré-revolução porque querem uma experiência da “China real”. Joãosinho Trinta tinha razão. Pobre gosta de luxo. Quem gosta de miséria é intelectual (ou intelectualóide, adiciono eu)
Tratar a idéia de pegar um táxi como se fosse o planejamento de uma guerra contra um poderoso inimigo que pode acabar com a sua vida em questão de segundos. E ele peida muito durante o combate todo
O metrô cheio das 6 da tarde, com aquela simpática ajuda dos guardinhas pra espremer o equivalente a metade da população da Bélgica em cada vagão do trem
Telefones celulares usados como “ghetto blasters” no metrô, na rua, na chuva, na fazenda ou num monastério de sapê. E sempre tocando a fina flor do lixo pop chinês e estrangeiro
Bebida barata e falsa


